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O VÔO IMÓVEL: A ESCULTURA DE ZETTI NEUHAUS

 

Armindo Trevisan

 

        A escultura nasceu como uma arte imóvel. O seu sonho, porém, foi sempre o de Ícaro: poder  voar. Desde que apareceu, já na Pré-História, os seus suportes foram a madeira, o osso, a pedra, o bronze. É verdade que sua primeira manifestação, talvez, tenha sido a argila, com a qual, de acordo com o mito bíblico, se modelou o primeiro homem Só no século XX surgiram esculturas cinéticas, isto é, com movimento. No início, este  era mecânico, mais tarde, após a invenção das esculturas ditas pneumáticas, o motor foi substituído pelo vento e por impulsos humanos. Ficaram famosos os Móbiles  de Alexander Calder.
        Zetti Neuhaus não pratica nenhum tipo de escultura dinâmica. Sua ambição é outra: introduzir o movimento na imaginação do espectador. Em vez de fazer girar suas peças, ou deixá-las moverem-se ao sabor de forças naturais, Zetti prefere acionar lembranças de movimentos, evocações delicadas de asas e ramos.Quem de nós não acompanhou, alguma vez,  o vôo de uma borboleta ou de um pássaro, e em nossa época, de um avião a jato na amplidão do céu? Quem de nós não observou a oscilação de uma haste, ou o farfalhar agitado de ramagens num dia de inverno?  É essa misteriosa paixão que anima Zetti a fazer escultura, ou algo que se parece a ela, na medida em que a escultura tende a fixá-la no chão, devido à gravidade do peso dos volumes.
        Zetti busca sua inspiração nas árvores, de modo particular nas árvores antigas, que não ocultam nos troncos as cicatrizes da vida. Sim, é preciso insistir numa coisa: não existe uma única vida, a animal. Existe, também, a vida vegetal. Zetti se esforça por sugerir essa vida mais humilde, que se move na “periferia”, e que, por assim dizer, se contenta com o movimento dos braços, dispensando a locomoção. Suas peças são curvilíneas, sinuosas, retorcidas, enfim, são peças que desenham o vôo imóvel, que acontece no silêncio das raízes, ou na confusão das folhas. Esse mesmo vôo que Mario Quintana, num soneto famoso, associou às recordações de sua infância:


                                        Recordo ainda...E nada mais me importa...
            
                    
        Aqueles dias de uma luz tão mansa
                    
                   
Que me deixavam sempre, de lembrança,
  
                    
                  Algum brinquedo novo à minha porta...
                    
                   
Mas veio um vento de Desesperança
            
                    
        Soprando cinzas pela noite morta!
                
                    
    E eu pendurei na galharia torta
                   
                     Todos os meus brinquedos de criança.


        Existe qualquer coisa de infantil, no melhor sentido da palavra, de lúdico, nas peças de Zetti É o convite à dança. Nossos olhos não podem apreciá-las, sem se entregarem a uma espécie de requebro visual Como se deter  no que é, paradoxalmente, imóvel, e ao mesmo tempo nos impele para todas as direções? Essa aparente contradição confere às peças de Zetti a sensação, e principalmente o sentimento, de que tudo se move, embora nada se mova. É a oscilação entre o fora e o dentro, entre o que as mãos podem tocam (e é alumínio, ou metal) e o que não podem tocar, a fantasia, que se distrai com o rodopio das folhas, com o lento e secreto estirar-se das raízes, ou com a displicência dos troncos que se espreguiçam no ar.  É esta, enfim, a origem última do famoso devaneio de Bachelard. Dito de outro modo, é o pequeno segredo que envolve de poesia as peças de Zetti.
        A escultora de tais relevos e volumes não está preocupada em remeter-nos a um mundo, cada vez mais repleto de quinquilharias e de consumo. Suas esculturas destinam-se a pessoas que possuam um mínimo de espírito zen, a indivíduos que, inesperadamente, descobrem que ainda podem rir de si mesmos, a crianças que acordam no ninho da lucidez, a  homens e mulheres capazes de recuperarem certa ingenuidade sensorial. Sem isso, aliás, nem pode haver escultura, visto que, mesmo a mais séria, a mais “adequada” ao mundo  tecnológico e informatizado de hoje, será sempre uma invenção da fantasia, uma metáfora de nossa existência. Será sempre uma certa ironia à nossa obesidade mental. Como quando Cristo citou uma canção infantil aos seus soberbos opositores


                            Tocamos música alegre, e vocês: não dançaram!
       
                     Cantamos coisas tristes, e vocês: não choraram.


Quem visita uma mostra de Zetti Neuhaus é convidado a expatriar-se do universo frenético, a dançar, cantar, ou, se quiser... chorar! Mas sua sensibilidade não pode ficar algemada à mesmice de cada dia.

   
Zetti Neuhaus - Porto Alegre-RS - Brasil - Fone: + 55 (51) 3374-2253 - FAX: + 55 (51) 9962-0925 - e-mail: zetti@zetti.art.br